Até o Exército Brasileiro está no colo do Banco Master
O próprio documento técnico do COAF aponta sinais de irregularidade nas movimentações do banco após o recebimento dos recursos
O Exército Brasileiro credenciou o Banco Master para operar empréstimos consignados destinados a militares da ativa e da reserva e repassou cerca de R$ 39 milhões à instituição em pouco mais de um ano, segundo relatório de inteligência financeira do COAF obtido pelo jornal Folha de SP. O dado, por si só, já seria politicamente constrangedor. Torna-se escandaloso quando o próprio documento técnico aponta sinais de irregularidade nas movimentações do banco após o recebimento desses recursos.
De acordo com o relatório, os repasses feitos pelo Exército ao Master entre agosto de 2024 e outubro de 2025 apresentaram ao menos dois pontos de alerta: o débito imediato dos valores recebidos pelo banco, o que pode indicar transações suspeitas e burla da destinação do dinheiro, e a concentração desses recursos em uma mesma titularidade, prática que dificulta a identificação de outros beneficiários finais. Não se trata de ilação retórica, nem de exagero jornalístico. Trata-se do tipo de comportamento financeiro que desperta suspeitas formais justamente no órgão encarregado de monitorar lavagem de dinheiro no país.
O Exército afirmou, em nota, que não houve prejuízo aos cofres públicos porque os valores repassados eram oriundos dos rendimentos particulares dos militares, descontados em folha para quitação de dívidas privadas, e sustentou que sua função era apenas a de interveniente, responsável pelo desconto autorizado em contracheque e pelo repasse mensal à entidade consignatária. A explicação, embora administrativamente conveniente, é moral e institucionalmente miserável. O fato de o dinheiro não sair diretamente do Tesouro não absolve a Força de responsabilidade. Ao contrário: apenas revela que uma instituição de Estado colocou sua estrutura, sua credibilidade e sua máquina de pagamentos a serviço de um banco que acabaria envolvido em movimentações suspeitas pelo COAF.
O Master foi credenciado pelo Comando do Exército em 9 de fevereiro de 2023, após edital público, com alegada comprovação de habilitação jurídica, regularidade fiscal, trabalhista e qualificação econômico-financeira. O contrato inicial vigoraria até fevereiro de 2024, mas foi prorrogado por dois termos aditivos, assinados em janeiro de 2024 e janeiro de 2025. O segundo deles estendeu a vigência até janeiro de 2027. Em outras palavras, mesmo depois de o banco já estar integrado ao sistema de consignações da Força e mesmo com a engrenagem funcionando a pleno vapor, a relação institucional não foi reduzida, revista nem submetida a escrutínio público mais duro: foi prorrogada. Só terminou quando o Banco Central liquidou extrajudicialmente a instituição, em 18 de novembro de 2025. O Exército rescindiu o contrato em 24 de novembro, não por vigilância própria, mas porque o banco já havia ruído.
Os dados públicos citados na reportagem confirmam a dimensão do fluxo. Segundo o Portal da Transparência, o Master recebeu do Exército R$ 36,1 milhões em 2023, R$ 37,6 milhões em 2024 e R$ 23,4 milhões em 2025 a título de contrapartida ligada aos consignados, embora a reportagem destaque os R$ 39 milhões no período específico mencionado pelo RIF. A diferença entre recortes temporais e totais anuais não altera o essencial: o que se vê é uma relação robusta, reiterada e institucionalizada entre o Exército e um banco que, mais tarde, entraria em liquidação e apareceria em relatório do Coaf com alertas objetivos sobre o destino dos valores recebidos.
Militares ouvidos pela reportagem disseram que o volume global dos empréstimos era mediano em comparação com operações semelhantes realizadas com outras instituições financeiras, mas apontaram estranheza no fato de haver opção pelo Master quando havia bancos mais tradicionais disponíveis. Essa observação é devastadora porque toca no ponto que a burocracia sempre tenta esconder sob carimbos, editais e notas oficiais: a legalidade formal não elimina a responsabilidade pelo juízo prático. Um Exército sério não se limita a dizer que havia papelada em ordem. Um Exército sério se pergunta por que sua folha de pagamento estava servindo de correia de transmissão para um banco cuja confiabilidade hoje se tornou objeto de suspeita pública e financeira.
A Aeronáutica também manteve contrato semelhante com o Master, com vigência entre 2024 e 2029, para descontos em folha referentes a compromissos assumidos por militares ativos, inativos e pensionistas. A FAB informou que houve repasses em 2024 e 2025, mas não divulgou os valores, acrescentando que não realizou novas transferências após a liquidação extrajudicial e diante da ausência de ratificação dos dados bancários da entidade liquidante. A explicação, embora factual, expõe a mesma enfermidade institucional: o sistema não interrompe a operação porque detecta risco; interrompe porque o desastre administrativo já aconteceu.
A defesa de Daniel Vorcaro, apontado na reportagem como ligado ao banco, não respondeu aos questionamentos enviados pela Folha. O silêncio, nesse contexto, apenas amplia a gravidade política do episódio.
O mais humilhante para o Exército não é apenas ter transferido milhões a um banco que acabou liquidado. É ter feito isso enquanto a explicação oficial tenta reduzir tudo a uma operação neutra, mecânica e quase inocente, como se descontar em folha e repassar valores fosse um gesto burocrático sem implicações institucionais. Não é. Quando uma Força Armada empresta sua estrutura para alimentar financeiramente uma instituição que depois se revela cercada de suspeitas, a vergonha não está apenas no banco. Está também na indigência moral de uma instituição que se refugia em tecnicalidades para não enfrentar o óbvio. O dinheiro podia ser privado. O nome usado para viabilizar a operação era o do Exército Brasileiro. E isso, por si só, já é uma desonra pública.



