Coreia do Norte executa por assistir filmes: mundo finge que não vê
Quando um regime teme cultura, é porque já perdeu o controle da realidade
Há momentos na história em que a violência de um regime deixa de ser apenas instrumento de controle e passa a revelar algo mais profundo: o medo. Não o medo externo, de invasões ou guerras, mas o medo interno, silencioso, quase irreversível, de perder o controle sobre aquilo que sustenta qualquer sistema autoritário — a narrativa. É exatamente nesse estágio que se encontra hoje a Coreia do Norte sob o comando de Kim Jong-un.
Um relatório recente da Transnational Justice Working Group não apenas confirma o aumento de execuções no país, como revela uma mudança significativa no perfil das punições. Se antes os chamados crimes capitais estavam associados majoritariamente a atos como homicídio, hoje o regime desloca seu foco para algo muito mais revelador: o acesso à informação e à cultura estrangeira. Entre 2020 e 2024, dezenas de pessoas foram condenadas à morte por consumir ou compartilhar conteúdos vindos de fora, incluindo músicas de K-pop, filmes sul-coreanos e até textos religiosos. Trata-se de uma transformação que não pode ser lida apenas como endurecimento repressivo, mas como sintoma de um regime que passou a enxergar a informação como sua principal ameaça.
Esse movimento ganha contornos ainda mais dramáticos quando se observa que nem mesmo os círculos mais privilegiados estão imunes a essa dinâmica. Especialistas indicam que jovens pertencentes à elite norte-coreana, sobretudo em áreas urbanas, têm buscado ativamente esse conteúdo proibido, arriscando a própria vida para acessar produções culturais estrangeiras. Esse dado é particularmente relevante porque expõe uma fissura estrutural: quando a elite de um regime passa a consumir, ainda que clandestinamente, aquilo que o Estado tenta proibir, o problema já não está apenas na periferia do sistema, mas no seu núcleo.
A resposta do regime a esse processo tem sido a intensificação da violência, não apenas como punição, mas como espetáculo. Casos de execuções públicas por consumo de mídia estrangeira, acompanhadas da obrigatoriedade de presença de moradores locais, revelam uma tentativa deliberada de transformar o medo em instrumento pedagógico. Não se trata apenas de eliminar o indivíduo considerado infrator, mas de enviar uma mensagem clara à sociedade: qualquer contato com o mundo exterior pode custar a vida. Ainda assim, a própria necessidade desse tipo de encenação sugere que o controle já não é tão absoluto quanto o regime gostaria de demonstrar.
Há uma razão evidente para esse temor. O acesso a conteúdos estrangeiros rompe o isolamento informacional que sustenta a legitimidade do regime. Ao assistir a um filme, a uma série ou mesmo a um videoclipe, o cidadão norte-coreano não está apenas se entretendo; ele está sendo exposto a padrões de vida, valores e possibilidades que entram em choque direto com a narrativa oficial de prosperidade e superioridade nacional. Esse contato, ainda que limitado, tem o potencial de gerar questionamento, e é justamente esse processo que regimes autoritários buscam evitar a qualquer custo.
O mais inquietante, no entanto, não é apenas o que ocorre dentro da Coreia do Norte, mas a forma como o restante do mundo reage a isso. Em nome de estratégias diplomáticas ou de tentativas de aproximação, iniciativas que antes buscavam levar informação à população norte-coreana vêm sendo restringidas. A interrupção de métodos como o envio de conteúdos por meio de balões, por exemplo, reduz ainda mais as poucas brechas existentes para que a população tenha acesso a perspectivas externas. Na prática, isso significa reforçar, ainda que indiretamente, o isolamento que o próprio regime se esforça para manter.
A história recente oferece exemplos claros do impacto que a circulação de informação pode ter em contextos autoritários. Durante o declínio de regimes comunistas na Europa, o acesso a notícias e conteúdos vindos de fora desempenhou um papel fundamental na erosão da propaganda estatal. Quando a população passa a comparar a realidade em que vive com outras possibilidades, o discurso oficial perde força, e o controle ideológico começa a se desfazer. O que se observa hoje na Coreia do Norte parece seguir essa mesma lógica, ainda que sob condições mais extremas e com uma reação muito mais violenta por parte do Estado.
A intensificação das execuções por consumo de cultura estrangeira, portanto, não deve ser interpretada como sinal de força, mas de fragilidade. Um regime que precisa recorrer à morte para impedir que seus cidadãos assistam a filmes ou ouçam músicas não está apenas reprimindo comportamentos; está tentando conter um processo que já começou e que dificilmente poderá ser revertido. A informação, uma vez introduzida, tende a se espalhar, mesmo que de forma subterrânea, e cada tentativa de suprimi-la acaba revelando, paradoxalmente, o quanto ela já se tornou relevante.
No fim, o que está em jogo não é apenas a liberdade de consumo cultural, mas a própria capacidade de um regime sustentar sua versão da realidade. E quando essa sustentação depende cada vez mais da violência, a conclusão inevitável é que a crença já não basta. Resta apenas o medo. E o medo, como a história mostra repetidamente, é um instrumento poderoso, mas nunca definitivo.




A informação é, e sempre foi, a inimiga do comunismo/socialismo, pois, vivem e subsistem da sua omissão e distorção.