Edinho Silva: PT está errando no caso Master
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BRASÍLIA, 1° de Maio — O presidente do PT, Edinho Silva, fez o que raramente se vê na política brasileira: admitiu um erro estratégico do próprio partido em um dos temas mais sensíveis do momento — o escândalo do Banco Master. Em entrevista, ele reconheceu que o PT falhou ao não assinar o pedido de CPI para investigar o caso.
“O PT deveria ter assinado a CPI do Banco Master. Foi um erro”, afirmou.
A declaração não ocorre em um vácuo. Ela surge no meio de uma sequência de derrotas políticas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que evidenciam algo maior do que disputas pontuais: uma ruptura entre o Planalto e o Congresso.
Nos últimos dias, sob a articulação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o governo sofreu dois golpes diretos. Primeiro, a rejeição inédita da indicação de Jorge Messias ao STF. Em seguida, a derrubada do veto presidencial ao projeto que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro — medida que pode beneficiar inclusive Jair Bolsonaro.
Diante desse cenário, Edinho elevou o tom e foi além da crítica pontual. Para ele, o problema não é episódico — é estrutural.
“O modelo político brasileiro ruiu. Está totalmente destruído.”
A frase não é retórica vazia. Ela traduz uma percepção crescente dentro do próprio campo governista: o presidencialismo brasileiro entrou em uma fase de esgotamento, dominado por um Congresso que opera, segundo ele, sob lógica de troca e fragmentação de poder.
Edinho aponta diretamente para o sistema de emendas parlamentares como um dos sintomas mais graves dessa deformação. Na sua leitura, o Executivo tornou-se refém de um mecanismo que transforma orçamento em moeda política, corroendo a autoridade institucional do governo.
Ao mesmo tempo, o dirigente petista tenta reposicionar o partido no debate público. Apesar de estar no poder, insiste em negar que o PT represente o “sistema”, argumentando que a crise é global e que o sentimento antissistema nasce da frustração econômica prolongada desde 2008.
Mas há um problema evidente nessa narrativa: enquanto critica o sistema, o PT governa dentro dele — e, segundo o próprio Edinho, falha em momentos decisivos, como no caso da CPI do Banco Master.
A contradição aparece de forma ainda mais clara quando o tema é corrupção. O presidente do PT atribui o desgaste do governo às investigações recentes, que envolvem desde o INSS até operações ligadas ao Banco Master e outras instituições financeiras. Ainda assim, sustenta que o governo vencerá esse debate político.
Internamente, o partido também enfrenta outro desafio: reconquistar sua base social, especialmente entre jovens e novos trabalhadores da economia digital. Edinho admite dificuldade de diálogo com esses grupos e defende uma reaproximação com setores religiosos e com a chamada “nova classe trabalhadora”.
No plano eleitoral, ele descarta qualquer hipótese de substituição de Lula como candidato em 2026 e reafirma que o presidente será o nome do partido. Ao mesmo tempo, sinaliza uma estratégia de ampliação de alianças, inclusive com setores de centro e até da direita que, segundo ele, compartilham compromisso com a democracia.
No entanto, a entrevista revela mais do que uma estratégia: expõe um partido em estado defensivo, tentando explicar derrotas sucessivas enquanto enfrenta uma crise de narrativa e de poder.
No centro de tudo está o caso do Banco Master — não apenas como escândalo financeiro, mas como símbolo de algo maior: a incapacidade do sistema político de responder com coerência às próprias crises.
E, desta vez, até o próprio PT parece admitir isso.



