Farra dos cachês: Lula gastou 2 milhões de reais com influencers e artistas
O governo petista pagou para influenciadores digitais e artistas participarem de campanhas publicitárias desde 2025
Quando o Terça Livre de Allan dos Santos recebeu trocados do Google AdSense — literalmente centavos convertidos em alguns reais — a máquina de reputação da imprensa brasileira entrou em histeria moral. Era o fim do jornalismo, diziam. Era “financiamento obscuro”. Era a prova definitiva de que jornalistas independentes não passavam de “blogueiros de crachá”.
Agora, diante de um governo que distribui quase R$ 2 milhões em cachês para influenciadores e artistas, o silêncio é ensurdecedor. Ou pior: vem acompanhado de justificativas burocráticas, como se estivéssemos diante de uma política pública técnica, e não de um mecanismo clássico de cooptação de narrativa.
A Secretaria de Comunicação Social, comandada por Sidônio Palmeira, afirma que tudo isso reflete “novos hábitos de consumo de mídia”. Tradução: o Estado decidiu competir no mercado de atenção — usando dinheiro público — para comprar credibilidade emprestada de quem já tem audiência.
Não há ingenuidade aqui. Há método.
Quando Dira Paes recebe R$ 470 mil e Milton Cunha leva R$ 310 mil, não estamos falando apenas de campanhas institucionais. Estamos falando de transferência direta de prestígio simbólico: o governo se apropria da imagem dessas figuras para legitimar suas políticas. É publicidade? Sim. Mas é também propaganda — no sentido mais clássico do termo.
E o detalhe mais revelador: muitos dos influenciadores dizem ter tido “liberdade criativa”. Ora, liberdade criativa financiada pelo Governo não é liberdade — é um contrato. E contrato, por definição, cria obrigação. Pode não haver roteiro imposto, mas há um enquadramento implícito: ninguém morde a mão que paga.
O caso do João Kleber, inserido via parceria com o Kwai — que por sua vez recebeu R$ 19,5 milhões em anúncios — expõe outro nível do problema: a triangulação. O dinheiro não precisa ir diretamente ao influenciador para produzir efeito. Basta irrigar o ecossistema onde ele opera.
Enquanto isso, a imprensa que outrora se escandalizava com centavos hoje trata milhões como se fossem detalhe técnico de planilha.
Não é incoerência. É hierarquia.
A regra da esquerda é simples: quando não há imoralidade alguma, chame-os de canalhas. Quando a verdadeira imoralidade ocorre na esquerda, chame de “política pública”.
Os maiores cachês foram desembolsados para a atriz Dira Paes, que recebeu R$ 470 mil por ação de publicidade do programa Celular Seguro, e para o carnavalesco Milton Cunha, contratado por R$ 310 mil para divulgar o Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde.
O governo ainda pagou de R$ 1.000 a R$ 124,9 mil em cachês para ao menos 55 influenciadores digitais divulgarem vídeos sobre bandeiras e ações do governo ou para protagonizarem propagandas produzidas pelas agências de comunicação que têm contratos com a Secom.
Outros 12 nomes participaram das ações sem receber pagamentos federais ou por meio de parceria com big techs contratadas pela Secom, lista que inclui o apresentador João Kleber. Ele protagonizou propaganda do governo sobre “Teste de Fidelidade ao Brasil”.
A participação de João Kleber foi oferecida pelo Kwai, empresa que recebeu ao menos R$ 19,5 milhões em anúncios da Secom e ministérios no último ano.
A atriz Dira Paes protagonizou, no ano passado, a campanha sobre o aplicativo Celular Seguro, que permite o bloqueio dos aparelhos de vítimas de furto ou extravio. Atriz da TV Globo, ela integra o CDESS (Conselho do Desenvolvimento Econômico Social Sustentável) do governo Lula, conhecido como “Conselhão”. Também atuou como a mãe do presidente da República, dona Lindu, no desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval 2026.
Já Milton Cunha gravou dois vídeos voltadas ao público do Rio de Janeiro e exaltando o aumento de cirurgias no SUS. A Globo retirou o carnavalesco da apresentação do quadro Enredo e Samba, exibido no RJ1, telejornal local da emissora na capital fluminense, depois da gravação.
Segundo os valores divulgados pela Secom, o professor de história e comediante Matheus Buente recebeu a maior soma em pagamentos (R$ 124,9 mil) entre os influenciadores. Ele foi o protagonista de vídeos sobre a saída do Brasil do Mapa da Fome e sobre o Pix.
O governo também pagou para os influenciadores Morgana Camila (R$ 119,25 mil), Vitor DiCastro (R$ 90 mil), Anaterra Oliveira (R$ 50 mil) e Rodrigo Góes (R$ 50 mil) atuarem em campanhas publicitárias. Gabriela Ferreira, Giovana Fagundes e Matheus Sodré receberam R$ 40 mil cada, segundo a Secom.
Matheus Buente disse que o valor foi pago para a produção e divulgação de dois vídeos e que os conteúdos tiveram como objetivo “explicar, de forma acessível” as políticas públicas. Ele disse que recebeu “total liberdade criativa” na elaboração do material.
O influenciador Rodrigo Góes afirmou que participou de campanhas do Ministério da Saúde sobre vacinação e doação de sangue, sendo que a última foi feita sem remuneração. Disse que o pagamento está alinhado com as práticas do mercado e que a campanha foi construída com base na linguagem que ele utiliza nas redes, sem perder o caráter informativo.
A Secom afirma que a influenciadora Laura Sabino recebeu R$ 40 mil para produção de quatro vídeos. Procurada, ela disse que o valor está incorreto, mas não informou quanto recebeu. Laura disse que os trabalhos realizados não tinham o objetivo de promover o presidente Lula ou defender o governo, mas de orientar e contribuir para que os direitos cheguem a quem precisa.
Influenciadores e atores com maiores cachês desde 2025
Valores divulgados pela Secom por meio da Lei de Acesso à Informação
• Dira Paes: R$ 470 mil
• Milton Cunha: R$ 310 mil
• Matheus Buente: R$ 124,98 mil
• Morgana Camila: R$ 119,25 mil
• Vitor diCastro: R$ 90 mil
• Anaterra Oliveira: R$ 50 mil
• Rodrigo Góes: R$ 50 mil
• Gabriela de Oliveira Ferreira: R$ 40 mil
• Giovana Fagundes: R$ 40 mil
• Matheus Sodré: R$ 40 mil



