Gilmar Mendes para repórter: “Enfia essa pergunta na bunda”
O repórter questionou quem foi o responsável por custear as despesas de passagem aérea do ministro para Portugal
O episódio protagonizado por Gilmar Mendes em Lisboa não é apenas grotesco — é um retrato sintomático de uma elite institucional que perdeu completamente a noção de limites entre poder público e escrutínio público.
Durante um seminário jurídico organizado pelo Instituto Brasiliense de Direito Público, o ministro reagiu de forma patética a uma pergunta legítima de um jornalista do grupo Folha de S.Paulo sobre quem custeou sua viagem a Portugal. A resposta não foi apenas desrespeitosa — foi reveladora: “Devolva essa pergunta ao seu editor, manda ele enfiar isso na bunda. Isso é molecagem”.
Não há aqui margem para relativização. A pergunta é básica em qualquer democracia minimamente funcional: quem paga a conta de um ministro da Suprema Corte quando ele viaja ao exterior? Não se trata de curiosidade fútil, mas de transparência — princípio elementar da vida republicana. A reação de Gilmar Mendes, no entanto, sugere que esse tipo de questionamento é visto como afronta pessoal, não como dever institucional.
Pior: ao tentar se defender, o ministro recorreu ao velho expediente de atacar o mensageiro. Acusou a imprensa de viver de patrocínios e insinuou irregularidades no financiamento do próprio veículo que fazia a pergunta. É a inversão clássica: em vez de responder objetivamente, desvia-se o foco para desqualificar quem pergunta.
Esse comportamento não é isolado — ele se insere em um padrão mais amplo de blindagem institucional. Autoridades que deveriam prestar contas agem como se estivessem acima de qualquer questionamento, reagindo com hostilidade quando confrontadas com o básico. A mensagem implícita é clara: há temas que não devem ser tocados, e quem ousa fazê-lo será tratado como inimigo.
Mas o problema vai além do destempero verbal. Quando um ministro do Supremo — a mais alta corte do país — normaliza esse tipo de reação, ele estabelece um precedente perigoso. Se nem mesmo jornalistas podem fazer perguntas simples sem serem insultados, o que resta do debate público? Uma pena a repórter não ter devolvido na mesma moeda.
No fim, o episódio expõe algo mais profundo do que uma fala infeliz: revela uma cultura de poder que confunde autoridade com intocabilidade. E isso, em qualquer democracia séria, é o começo da degradação institucional.




Atacar é sempre a opção preferida por que está agindo de forma errada. Essa é a estratégia do perdedor. Não obstante a grosseria e estupidez da resposta, tal comportamento vindo de um ministro da mais alta corte, deixa claro o baixíssimo padrão moral ao qual essas criaturas estão submetidas.
Esse tipo de reação, virulenta, em nada ajuda a reconduzir a confiança na autoridade. Pode até configurar força contrária.