Lula teme a palavra terrorismo
A resistência do governo em classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas expõe um dilema político, diplomático e estratégico que o Planalto já não consegue esconder
WASHINGTON, 7 de maio de 2026 - A reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, marcada para Washington, não gira apenas em torno de comércio, diplomacia ou relações bilaterais. Nos bastidores, o centro da tensão está em um tema muito mais delicado: a possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Oficialmente, o governo brasileiro argumenta que as facções não se enquadram na legislação nacional sobre terrorismo. O discurso é jurídico, técnico e cuidadosamente elaborado. A tese defendida pelo Palácio do Planalto afirma que grupos como PCC e CV possuem finalidade econômica, voltada ao lucro do narcotráfico e da lavagem de dinheiro, sem motivação ideológica, religiosa ou política. Sob essa interpretação, seriam organizações criminosas, não terroristas.
Mas a discussão deixou de ser apenas jurídica há muito tempo.
O que realmente preocupa o governo brasileiro é o que essa classificação representaria na prática. Nos Estados Unidos, designar um grupo estrangeiro como organização terrorista produz consequências que vão muito além da semântica. Isso abre caminho para sanções financeiras internacionais, bloqueio de ativos, restrições diplomáticas, perseguição global de financiamento e, em cenários extremos, justificativas para operações internacionais de segurança.
É exatamente esse ponto que o governo Lula tenta evitar.
A preocupação do Planalto não nasce do nada. O governo Trump já transformou o combate ao narcotráfico em eixo central de sua política para as Américas. A captura de Nicolás Maduro, as ações contra cartéis na região do Caribe e do Pacífico e o endurecimento contra organizações criminosas mexicanas mostram que Washington passou a tratar o narcotráfico não apenas como questão policial, mas como ameaça estratégica à segurança nacional americana.
Nesse contexto, o Brasil entrou no radar.
Relatórios americanos apontam que integrantes do PCC já operam dentro do território dos Estados Unidos, com presença identificada em estados como Flórida, Nova York, Nova Jersey e Massachusetts. O próprio tamanho da facção impressiona autoridades estrangeiras. Com atuação em dezenas de países e milhares de membros, o PCC deixou de ser visto apenas como um fenômeno criminal brasileiro e passou a ser tratado como uma organização transnacional de grande escala.
O problema para o governo brasileiro é que, uma vez estabelecida essa narrativa em Washington, o controle político sobre o tema diminui drasticamente.
A resistência de Lula à classificação revela um impasse muito maior do que o governo admite publicamente. Se aceitar a definição americana, o presidente corre o risco de validar um novo patamar de influência externa sobre questões internas brasileiras. Se rejeitar completamente a proposta, abre espaço para acusações de complacência diante do avanço do crime organizado.
E existe um elemento ainda mais sensível nessa equação.
Ao longo dos últimos anos, o narcotráfico deixou de atuar apenas como estrutura paralela de criminalidade e passou a ocupar territórios, impor regras locais, controlar fronteiras informais, influenciar disputas políticas regionais e desafiar diretamente o poder do Estado em diversas áreas do país. Em algumas regiões, facções já exercem funções típicas de autoridade, controlando circulação, comércio e até mecanismos de “justiça” informal. Para parte das autoridades americanas, esse grau de domínio territorial se aproxima perigosamente daquilo que, internacionalmente, já se entende como insurgência armada ou ameaça terrorista.
É por isso que a discussão se tornou explosiva.
O governo brasileiro tenta sustentar uma linha diplomática baseada na cooperação bilateral, argumentando que o combate ao crime deve ocorrer dentro das instituições nacionais, sem interferência estrangeira. O problema é que essa narrativa enfrenta dificuldades diante do crescimento internacional das facções e da percepção, cada vez mais disseminada fora do Brasil, de que o país perdeu parte da capacidade de contenção dessas organizações.
Nos bastidores, Washington também observa outro fator. O alinhamento geopolítico do governo Lula com regimes e governos historicamente hostis à política externa americana produz desconfiança dentro da Casa Branca. Em um cenário internacional marcado por disputas estratégicas, terrorismo, narcotráfico e influência chinesa passaram a ser temas frequentemente tratados dentro da mesma lógica de segurança nacional.
Isso ajuda a explicar por que a reunião entre Lula e Trump se tornou tão delicada.
O presidente brasileiro precisa evitar que o encontro seja interpretado internamente como submissão aos interesses americanos, especialmente diante de uma base política que tradicionalmente rejeita qualquer sinal de alinhamento automático com Washington. Ao mesmo tempo, não pode transformar a reunião em confronto aberto, sob risco de ampliar tensões diplomáticas e econômicas em um momento de fragilidade política e fiscal.
A consequência é um movimento de equilíbrio quase impossível. Lula tenta impedir a classificação das facções como terroristas enquanto procura demonstrar disposição para cooperar no combate ao crime organizado. O problema é que, para setores do governo Trump, talvez essa distinção já tenha deixado de fazer sentido.
E quando uma potência estrangeira começa a enxergar organizações criminosas brasileiras como ameaças diretas à própria segurança nacional, o debate deixa de ser apenas sobre crime a ser sobre soberania.



