Lula viaja para Washington enquanto Alckmin fala com Pequim
Alckmin leva agro brasileiro para a China enquanto Lula finge tentar resolver tensões comerciais com Trump
BRASÍLIA, 12 de maio de 2026 — A participação do vice-presidente Geraldo Alckmin e do embaixador chinês Zhu Qingqiao no 4º Congresso da Abramilho, em Brasília, ocorre em um momento particularmente delicado para a política externa brasileira: o governo de Luiz Inácio Lula da Silva luta simultaneamente aprofundar relações econômicas com a China e finge evitar um novo ciclo de tensões comerciais com os Estados Unidos sob a administração de Donald Trump.
O evento do setor agrícola, inicialmente tratado como um fórum técnico sobre milho, exportações e segurança alimentar, acabou assumindo dimensão geopolítica. A presença direta da diplomacia chinesa no centro das discussões do agronegócio brasileiro escancara a estratégia de Pequim de consolidar o Brasil como fornecedor estrutural de alimentos, energia e commodities minerais em meio ao acirramento da disputa global entre China e Estados Unidos.
Hoje, a China já é o principal parceiro comercial do Brasil e absorve aproximadamente 28% das exportações brasileiras, contra cerca de 12% destinadas aos EUA. O agronegócio tornou-se a espinha dorsal dessa relação. Em alguns setores, a dependência é ainda maior: quase metade das exportações brasileiras de carne bovina tiveram a China como destino recente.
Ao mesmo tempo, a guerra comercial entre Washington e Pequim acabou fortalecendo produtores brasileiros. Dados do setor agrícola apontam que a China reduziu significativamente sua dependência da soja americana desde a primeira guerra tarifária entre EUA e China, iniciada ainda no primeiro governo Trump.
Executivos do agronegócio brasileiro estimam que a China deve importar cerca de 80 milhões de toneladas de soja brasileira, contra aproximadamente 21 milhões dos EUA. A avaliação predominante no setor é que a disputa atual deixou de ser apenas comercial e passou a ter natureza claramente geopolítica.
Nos bastidores do governo brasileiro, cresce a percepção de que a China enxerga o Brasil não apenas como parceiro comercial, mas como peça estratégica de longo prazo para sua segurança alimentar e sua política de redução de vulnerabilidades externas.
Pequim ampliou investimentos em portos, fertilizantes, energia, ferrovias, tecnologia agrícola e sistemas financeiros alternativos ao dólar em diversas regiões da América Latina. No Brasil, empresas estatais chinesas já possuem participação relevante em transmissão de energia, mineração, logística portuária e infraestrutura crítica. Já somos uma província chinesa.
A presença do embaixador chinês em um congresso agrícola ocorre justamente enquanto Lula finge reconstruir pontes com Trump após meses de tensões comerciais e diplomáticas. Recentemente, Lula e Trump realizaram reunião em Washington para discutir tarifas, comércio, minerais estratégicos e segurança.
O governo Trump chegou a impor tarifas adicionais pesadas sobre produtos brasileiros, alegando questões políticas e comerciais relacionadas ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Parte dessas tarifas foi posteriormente suspensa após negociações conduzidas por Alckmin, mas investigações comerciais americanas ainda permanecem abertas.
Dentro do Itamaraty e do setor empresarial brasileiro existe preocupação crescente com o risco de o Brasil ser pressionado a escolher lados em uma disputa cada vez mais estratégica entre Washington e Pequim.
Enquanto a China amplia sua presença econômica no agro brasileiro, os Estados Unidos observam com atenção o avanço chinês sobre cadeias consideradas sensíveis, especialmente alimentos, minerais críticos, energia e sistemas financeiros alternativos.
O próprio Alckmin vem atuando como principal negociador econômico do governo Lula tanto nas conversas com Washington quanto na aproximação com Pequim. Em abril, o vice-presidente afirmou que o acordo Mercosul-União Europeia pode ampliar as exportações brasileiras em 13% até 2038, numa tentativa de diversificar mercados e reduzir dependências excessivas.
Ainda assim, a dependência chinesa do agronegócio brasileiro e a dependência brasileira do mercado chinês estão se tornando mutuamente estruturais — algo que tende a aumentar o peso geopolítico de Pequim sobre Brasília nos próximos anos.
Nos EUA, setores ligados à segurança nacional já tratam o avanço chinês sobre América Latina, infraestrutura logística e commodities agrícolas como parte central da disputa estratégica do século XXI. O Brasil, maior economia da região e potência agroexportadora, tornou-se peça-chave desse tabuleiro.



