O Brasil vive sob domínio do narcotráfico
Delação de mafioso italiano revela o que a classe política se recusa a reconhecer
SÃO PAULO, 11 de maio de 2026 — O Brasil passou décadas discutindo segurança pública como se estivesse diante apenas de um problema policial. Não está. O país entrou em outro estágio da degradação institucional, e talvez a característica mais perigosa dessa nova fase seja justamente o fato de que boa parte da elite política, jurídica e acadêmica continua fingindo que nada mudou.
O que existe hoje no Brasil já não é apenas criminalidade organizada, é uma estrutura paralela de poder que controla território, movimenta bilhões internacionalmente, infiltra instituições, domina economias locais e exerce autoridade prática sobre milhões de brasileiros. O nome técnico que Brasília queira dar para isso pouco importa. A população já entendeu o que está acontecendo. O Estado é que continua se recusando a admitir.
A delação do mafioso italiano Vincenzo Pasquino talvez seja uma das provas mais contundentes disso tudo.
Segundo o depoimento obtido por autoridades brasileiras e revelado pelo Poder360, o Primeiro Comando da Capital firmou acordos operacionais com máfias italianas e passou a financiar cerca de 50% da cocaína enviada para a Europa. Não estamos falando de pequenos criminosos operando na periferia de grandes cidades, estamos falando de uma estrutura criminosa brasileira integrada ao narcotráfico global em escala industrial.
Pasquino relatou encontros com integrantes do PCC em São Paulo para fechar consórcios internacionais de distribuição de drogas. Descreveu rotas marítimas, técnicas sofisticadas de ocultação de cocaína em navios, uso de mergulhadores especializados e uma cadeia logística que conecta portos brasileiros ao mercado europeu.
A cocaína comprada do PCC por cerca de 5 mil euros o quilo chegava ao continente europeu valendo até 25 mil euros.
Essa não é mais a linguagem da criminalidade comum, é a linguagem do crime transnacional organizado em nível geopolítico.
E o mais importante talvez seja perceber o que essa informação realmente significa. Uma organização criminosa brasileira se tornou peça estratégica de abastecimento do narcotráfico europeu. Isso altera completamente a dimensão do problema nacional. O Brasil deixou de ser apenas consumidor ou corredor de drogas. Tornou-se plataforma operacional internacional do crime organizado.
Enquanto isso, dentro do país, o avanço territorial das facções já alcançou níveis que deveriam provocar estado permanente de emergência nacional.
Dados recentes do Datafolha mostram que 41% dos brasileiros afirmam conviver diretamente com facções criminosas nos locais onde vivem. São aproximadamente 68,7 milhões de pessoas vivendo sob algum grau de influência direta do crime organizado.
Esse talvez seja um dos números mais devastadores da história recente brasileira.
Porque ele desmonta definitivamente a narrativa de que o problema está restrito a áreas isoladas ou situações excepcionais. O domínio criminoso se espalhou territorialmente pelo país inteiro. E ele não se manifesta apenas através da violência explícita.
Segundo a pesquisa, 75% dos brasileiros evitam circular por determinados locais por medo da criminalidade. Mais de 70% temem que familiares sejam recrutados ou envolvidos pelo tráfico. Milhares relatam ser obrigados a contratar serviços indicados pelas próprias facções, incluindo internet clandestina, distribuição de gás, transporte e fornecimento irregular de energia.
O crime organizado deixou de ser apenas uma ameaça armada, tornou-se administrador informal da vida cotidiana em parcelas crescentes do território nacional.
E aqui talvez esteja o ponto mais humilhante de toda essa história: o brasileiro já se acostumou com isso.
O cidadão aprende desde cedo quais bairros possuem “donos”, quais horários representam risco, quais ruas devem ser evitadas e quais regiões vivem sob regras próprias impostas pelo narcotráfico. O toque de recolher deixou de ser exceção e o silêncio imposto pelo medo virou rotina. Em muitas comunidades, a autoridade prática não emana da Constituição, mas do gerente local da facção.
O Estado aparece depois, quando aparece, apenas para contabilizar cadáveres, conceder entrevistas e produzir relatórios burocráticos sobre uma realidade que já escapou do seu controle.
Existe uma diferença importante entre violência urbana elevada e perda de soberania territorial. O Brasil começa perigosamente a atravessar essa fronteira.
Porque organizações como o PCC já não operam apenas como grupos criminosos buscando lucro imediato. Elas exercem controle territorial, organizam cadeias econômicas paralelas, impõem regras locais, influenciam mercados, infiltram estruturas institucionais e constroem poder político indireto.
É por isso que cresce internacionalmente a discussão sobre classificar facções brasileiras como organizações terroristas ou ameaças transnacionais à segurança.
E Brasília teme profundamente essa possibilidade.
Não porque a classificação seja juridicamente impossível, mas porque ela obrigaria o país a admitir publicamente o tamanho real do colapso. Reconhecer a natureza do problema significaria admitir que o Estado brasileiro perdeu capacidade plena de controle em partes relevantes do território nacional.
A verdade é que o Brasil burocrático continua tratando o narcotráfico como fenômeno sociológico administrável enquanto o Brasil real já vive sob ocupação criminosa silenciosa.
O mais perverso é que essa degradação avança acompanhada de outra: a degradação moral das próprias instituições. O mesmo Estado incapaz de proteger o cidadão comum demonstra enorme eficiência para arrecadar impostos, perseguir adversários políticos, censurar opiniões e ampliar mecanismos de controle sobre a população.
A sensação coletiva de abandono cresce justamente porque o brasileiro percebe intuitivamente essa contradição. Ele trabalha, paga impostos altíssimos, sustenta uma máquina pública gigantesca e, ainda assim, vive sozinho diante da violência.
Sozinho diante do criminoso, diante da decadência institucional e sozinho diante de um Estado que parece cada vez mais confortável administrando o caos do que resolvendo suas causas.
O país entrou numa fase historicamente perigosa: aquela em que a sociedade começa a normalizar a decomposição da autoridade estatal. E quando uma nação se acostuma demais à degradação, normalmente descobre tarde demais que o abismo político e moral não possui fundo.



