O mar devolveu o que a barbárie tentou ocultar
Pedaços de corpos humanos são encontrados na areia da praia. Isso mesmo, pedaços de corpos humanos
Fortaleza, Ceará — O litoral cearense amanheceu, mais uma vez, com a consciência à deriva. Na faixa de areia da Praia da Leste-Oeste, no bairro Jacarecanga, banhistas se depararam com aquilo que nenhuma sociedade que ainda se pretenda civilizada deveria tolerar: partes de um corpo humano espalhadas como destroços de uma dignidade já violada em terra firme. Pernas, braço, cabeça — fragmentos de uma vida reduzida a evidência pericial.
As autoridades foram acionadas. Bombeiros, policiais militares e peritos estiveram no local, recolhendo o que restou. Cumpriram o protocolo. Mas o protocolo, aqui, é a parte menos inquietante do episódio. O que deveria perturbar — e muito — é a naturalidade com que o horror tem sido incorporado ao cotidiano.
Não se trata de um fato isolado. Dias antes, em Paracuru, também na região metropolitana, um braço humano em avançado estado de decomposição foi encontrado na areia, atraindo aves de rapina e a curiosidade mórbida de quem passava. O mar, que por séculos simbolizou fuga, comércio e esperança, converte-se, em episódios como estes, em cúmplice involuntário da ocultação de crimes — e, ao mesmo tempo, em denunciante tardio.
É preciso dizer o óbvio, ainda que o óbvio pareça hoje um exercício de resistência: uma sociedade que permite que seus mortos sejam desmembrados e descartados como lixo já atravessou, silenciosamente, a fronteira que separa a ordem da barbárie. Não há retórica capaz de suavizar esse fato. Não há estatística que o torne aceitável. A imagem da matéria é um braço humano achado em praia no Paracuru, no Ceará. Entendeu a gravidade do ocorrido?
A recorrência desses achados em curto espaço de tempo impõe uma pergunta incômoda: o que está acontecendo fora do alcance das câmeras, antes que as ondas tragam à superfície aquilo que se tentou esconder? Não é apenas um problema de polícia — é um problema civilizacional. A investigação, como sempre, seguirá seu curso. Identificar-se-á a vítima, talvez se encontre um autor, talvez não. O caso será arquivado ou substituído por outro, igualmente chocante.
Mas o que permanece — e deveria permanecer — é o sintoma. O de um país que, em determinadas regiões, já não consegue garantir sequer a integridade de seus mortos. Onde o corpo humano, último reduto de respeito que a cultura ocidental sempre preservou, passa a ser tratado como objeto descartável, assim como no assassinato de bebês no ventre de suas mães.
Nos anos em que o Brasil buscava “consolidar suas instituições democráticas”, perdia-se idosos e mendigos sob a alcunha de “defesa do Estado de Direito”. O episódio ocorrido no litoral do Ceará desmente, com crueza, essa expectativa. Não há democracia que se sustente onde a vida — e, agora se vê, até o cadáver — perde valor.
O mar devolveu o que a barbárie tentou esconder. Resta saber se a sociedade ainda é capaz de reagir ao que viu — ou se seguirá, como as ondas, apenas levando e trazendo os sinais de um naufrágio moral já em curso, enquanto só se preocupa com impostos e dinheiro.



