O Rio desaba enquanto a Alerj caça humoristas
A política fluminense trocou a crise real pelo espetáculo ideológico ao transformar Fábio Porchat em alvo institucional
RIO DE JANEIRO - 14 de maio de 2026 — A Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou o projeto que declara Fábio Porchat “persona non grata” no Estado do Rio de Janeiro. A proposta, apresentada pelo deputado Rodrigo Amorim, recebeu quatro votos favoráveis e agora seguirá para o plenário da Casa.
O motivo alegado é conhecido. Piadas, esquetes e declarações consideradas ofensivas contra Jair Bolsonaro, além de ironias envolvendo o ator Juliano Cazarré e pautas ligadas ao conservadorismo religioso. Tudo isso foi suficiente para transformar a Assembleia Legislativa do Rio num tribunal simbólico de reprovação moral.
E aqui começa o problema real.
Não porque Fábio Porchat seja intocável. Não porque humoristas devam estar acima de críticas. Não porque conservadores não tenham o direito de reagir culturalmente ao deboche sistemático produzido por parte da indústria do entretenimento brasileira. O ponto central é outro.
O problema é quando instituições públicas começam a substituir responsabilidade política concreta por encenação simbólica permanente.
O Rio de Janeiro atravessa uma crise brutal de segurança pública, degradação fiscal, colapso urbano e avanço territorial do narcotráfico. Facções criminosas controlam bairros inteiros, impõem toque de recolher, administram serviços clandestinos e desafiam abertamente o Estado. A população vive encurralada entre medo, violência e abandono institucional. Ainda assim, parte da classe política decidiu transformar a comissão mais importante da Assembleia num palco para julgar humorista.
Isso diz muito sobre o estado mental da política brasileira.
Porque existe uma diferença entre fazer disputa cultural e transformar o aparato legislativo em instrumento performático de sinalização ideológica. A política séria entende prioridades. A política degradada vive de gestos simbólicos para alimentar bolhas emocionais.
O mais curioso é que muitos dos argumentos usados para justificar a medida seriam imediatamente rejeitados pela própria direita se fossem utilizados contra conservadores.
Afinal, desde quando piada ofensiva virou critério para censura moral institucional? Desde quando o Estado precisa emitir certificados oficiais de aprovação ideológica sobre artistas, humoristas ou comunicadores? E mais importante: qual exatamente é o limite disso?
Hoje é Porchat. Amanhã será quem?
O conceito de “persona non grata” nasce no direito internacional e possui peso diplomático específico entre Estados soberanos. Aplicá-lo de maneira teatral contra um humorista brasileiro dentro do próprio país transforma um instrumento diplomático em caricatura legislativa. Alguns parlamentares da própria comissão levantaram questionamentos sobre constitucionalidade e sobre a inadequação técnica da proposta. Houve inclusive defesa de que uma eventual moção política faria mais sentido do que um projeto formal.
Mas talvez o aspecto mais revelador de toda essa história seja outro: a política brasileira se tornou completamente dependente da lógica do espetáculo digital.
Tudo precisa virar símbolo. Tudo precisa virar gesto performático. Tudo precisa gerar corte de vídeo, manchete, engajamento, lacração e guerra cultural permanente. O exercício real do poder vai sendo substituído lentamente pela produção contínua de narrativas emocionais para consumo das próprias bases.
Enquanto isso, os problemas concretos seguem intactos.
O cidadão do Rio continua saindo de casa sem segurança. Continua vivendo atrás de grades. Continua pagando impostos absurdos para sustentar um Estado incapaz de garantir ordem pública elementar. Continua observando facções expandirem poder econômico e territorial diante de autoridades frequentemente impotentes.
Mas a Assembleia encontrou tempo para discutir se um humorista merece reprovação moral oficial.
Existe uma armadilha perigosa nisso tudo. Quando a política abandona a dimensão prática da realidade e passa a operar apenas no campo simbólico, ela começa lentamente a perder legitimidade diante da população comum. O cidadão olha para o colapso ao redor e percebe que boa parte da energia institucional está sendo consumida em disputas performáticas que pouco alteram sua vida concreta.
E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo no Brasil inteiro.
A esquerda passou anos transformando linguagem em mecanismo de controle político e moral. Agora parte da direita começa a correr o risco de cair na mesma armadilha, apenas invertendo os sinais ideológicos. O problema nunca foi quem controla o tribunal moral. O problema é transformar a política inteira num tribunal moral permanente.
Porque sociedades livres dependem justamente da capacidade de tolerar até aquilo que consideram ofensivo, ridículo ou vulgar. E isso vale para todos os lados.
O Estado não existe para proteger cidadãos contra piadas. Existe para protegê-los contra violência, crime, corrupção e colapso institucional.
Quando essa ordem de prioridades se inverte, o espetáculo substitui a autoridade. E governos que passam tempo demais administrando símbolos normalmente começam a perder controle da realidade.




Grandessíssima bobagem. Uma coisa não impede a outra. Pode-se repudiar um imbecil como o humorista cretino, e tratar dos demais assuntos. Por que fazer essa relação imbeciloide?
É verdade que o Rio está sofrendo com a criminalidade. Também é verdade que o Estado, o Poder Público, é podado de sua capacidade plena em combater o crime, submetido à grilhões jurídicos absurdos, como a necessidade de autorização para agir em favelas e subir morros imposta pelo militante togado Fachin, além de esdrúxulas decisões de juízes e promotores que, na prática, tornam o crime vantajoso.