PCC opera rede de lavagem com prefeituras e fintech
Operação mira grupo que teria criado estrutura para acessar recursos públicos e financiar atividades criminosas
São Paulo, 28 de abril de 2026 — A Polícia Civil de São Paulo prendeu seis pessoas na Operação Contaminatio, que apura a suspeita de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em administrações municipais para lavar dinheiro do tráfico de drogas por meio de contratos públicos e serviços financeiros prestados a prefeituras.
A operação cumpriu 22 mandados de busca e apreensão e resultou no bloqueio judicial de mais de R$ 513 milhões em bens e ativos ligados aos investigados. As diligências ocorreram em São Paulo, Guarulhos, Santo André, Mairinque, Campinas, Ribeirão Preto e Santos, além de Goiânia, Aparecida de Goiânia, Brasília e Londrina.
Segundo a polícia, a investigação é desdobramento da Operação Decurio, deflagrada em agosto de 2024. A análise de dispositivos eletrônicos apreendidos naquela fase teria revelado uma estrutura voltada não apenas ao tráfico de drogas, mas também à lavagem de dinheiro e à aproximação com o setor público.
De acordo com os investigadores, o PCC teria criado um “núcleo político” para acessar recursos públicos, articular contratos com prefeituras e ampliar seus negócios. Entre as estratégias apontadas estão o apoio e o financiamento de candidaturas alinhadas aos interesses da facção.
A apuração também mira uma fintech, identificada como 4TBank, suspeita de atuar como uma espécie de banco paralelo. Segundo a Polícia Civil, o esquema envolveria a emissão de boletos — alguns supostamente fraudulentos — para movimentar recursos, cobrar taxas de operação e permitir que entidades cooptadas simulassem pagamentos formais.
O dinheiro, segundo o modelo descrito pelos investigadores, teria origem em atividades ilícitas, principalmente tráfico de drogas, e entraria no sistema por depósitos fracionados. Depois, circularia por boletos e entidades intermediárias para dificultar a fiscalização. Ao final, valores seriam sacados em espécie, transportados inclusive por helicóptero, e entregues a lideranças da organização.
A Polícia Civil também apura a participação de pessoas ligadas a administrações municipais, incluindo ao menos uma servidora comissionada que manteria relação com integrante de alto escalão do grupo criminoso. Os investigadores identificaram pelo menos seis pessoas com atuação em administrações da Baixada Santista, ABC Paulista, Campinas e Ribeirão Preto. Nenhum dos alvos teria foro privilegiado ou mandato eletivo, segundo a reportagem.
A investigação revelou o uso do heliponto do Palácio dos Bandeirantes, em março de 2022, para que um criminoso assistisse a um jogo no Morumbi. A apuração também cita João Gabriel Yamawaki, preso em março sob suspeita de ligação com uma carga de 500 quilos de cocaína.



